O que é uma viagem? Um mistura de sentimentos e emoções diversas, vividas ao longo dos trechos percorridos. Enquanto o asfalto passa por sob as rodas da moto, ficamos eufóricos, preocupados, alegres, pensativos, cantamos às vezes e em outras ocasiões, a maioria, simplesmente nos deliciamos com o frescor do vento cantando no capacete e o roncar ronronante da descarga expelindo os gases da queima do combustível.

Sempre atentos às nuances da estrada, com suas curvas, retas, buracos, pessoas passantes, cachorros, gatos e outros bichos que não nos dão a mínima idéia se vão cruzar ou não nossa frente. Reduzimos a marcha sempre que tais animais surgem em nossa frente ou quando somos surpreendidos pelas intempéries. Ventos laterais fortes desequilibram a moto e nos fazem viajar de lado, ventos dianteiros fortes nos fazem  gastar mais combustível e mais tempo para chegar ao destino, mas, ventos traseiros sempre vêm com aquela economia de combustível e a sensação de que estamos viajando nas nuvens. Que sensação mais gostosa quando sob o sol forte e o calor que nos queima a pele embaixo do couro da jaqueta, passamos entre as árvores de uma mata frondosa.

É um refresco para o corpo e para a mente e ficamos a pensar por que o trecho não é todo assim entre árvores e no regaço do frescor emanados por elas.  E a companhia dos amigos?  Com eles temos a sensação da segurança de alguém que sempre estará por perto em qualquer situação que venha a acontecer; que podemos contar sempre com ele para o que der e vier. E como é bom chegar cansado e suado, pegar um hotel, tomar um banho e sair para acomodar um pouco de alimento no estômago já acostumado aos lanches das lojas de conveniência dos postos de gasolina, mas pedindo um suprimento de arroz, feijão, carne e outros ingredientes indispensáveis ao nosso metabolismo.

E, a certeza de que, no dia seguinte mais estradas nos esperam, mais sol, calor, frio, vento e as pessoas nas estradas que teimam em nos cumprimentar mesmo não nos conhecendo. “Não adianta explicar, não iriam entender mesmo” é a melhor expressão para identificar tudo aquilo que passamos na estrada e os “outros” ficam a perguntar: “e isso é bom?”  Claro que é....

Assim, dia 27 de junho, numa bela e ensolarada quinta-feira,  partimos de Vitória, Alípio e eu com destino à Bom Despacho já com uma parada programada em Belo Horizonte para encontramos com nosso grande irmão motociclista das arábias, o Marcão, que partiu de Guarulhos com objetivo de se encontrar conosco em Belo Horizonte, já que a passagem por Tiradentes havia sido e de lá seguirmos todos para Bom Despacho (MG), cidade onde iria se reunir a nata do motociclismo regional e nacional para participar do evento oficial dos “Falcões da Estrada”.

Chegando a Belo Horizonte  onde pretendíamos  pernoitar, o Marcão já nos esperava defronte  ao hotel   e sendo ainda dia claro, uma pergunta se fez no ar pelo nosso grande  irmão Alípio: “Que estamos fazendo aqui, por que não vamos em frente, pelo menos até Juatuba?”  Ninguém se fez de rogado, montamos em nossas máquinas e Juatuba ficou para trás, já que Bom Despacho era só mais cem quilômetros à frente.    Paramos somente  na porta da Pousada do SESC. Felizes por saber que agora era curtir o evento e os amigos dali ou os que viriam  chegar.

Bonita esta cidade de Bom Despacho, encrava no algo de uma elevação, pode ser vista de longe e quando entramos na cidade, temos a grata satisfação de encontrar uma cidade limpa, com um comércio ativo, praças conservadas e uma bela igreja bem no centro da praça principal a ornamentar toda aquela paisagem urbana de interior e onde as pessoas ainda se cumprimentam e batem papo pelas esquinas e bancos dos jardins, sem aquele medo característico das grandes cidades, onde cada um que passa pode ser um perigo em potencial.

Emanuel, “Loucos das Gerais” no churrasco em  Bom Despacho, com os “Formiguinhas”.

Não sei como aconteceu mas, de repente, o telefone tocou e o Emanuel, “Loucos das Gerais”, já providenciava um guia para nos levar para um belo churrasco patrocinado pelos “Formiguinhas do Asfalto”. Não é preciso contar que, pelas bandas das gerais, além da cerveja e churrasco rolou uma pinguinha de primeira qualidade disputada no tapa pelos insaciáveis beberrões da noite. Enquanto isso, nosso amigo Everson estava em BH tomando uma dose de radiação atômica para ficar mais elétrico ainda e dar conta do recado de receber três viajantes “malas” impregnados de uma vontade louca de lhe dar um abraço amigo.

Estranho esse negócio de homem abraçar homem, mas existe  sensação melhor do que abraçar um amigo? Sentimos o quanto somos queridos e aceitos por aqueles que não sendo nosso sangue, são muito mais que nossa própria família, por representarem a união e o companheirismo, necessários ao nosso próprio crescimento  interior.
Não vou falar do evento. Todos os eventos são iguais. O que destaca um evento do outro, são as pessoas que neles encontramos, os amigos que revivemos e as companhias do “ipi urra” e da “saúde” que pronunciamos em uníssono ao virar um copo de cerveja. Bom Despacho se destaca por esse diferencial que ali encontramos. 

No domingo, o Alípio pegou estrada de volta para casa e o Marcão e eu fomos dar trabalho e desarrumar as camas do Everson que, juntamente com  sua esposa Dirlene e sua filha, não cansavam de nos paparicar, deixando-nos saciados de suas amizades e de suas atenções. Casal “porreta” esse! Ali estão reunidas as melhores qualidades que se possa ter. Na segunda-feira, já com o Endgel incorporado ao grupo e com sua atenção refinada, levou-nos para conhecer “seu” Cabral e suas violas de bambu; uma fábrica de cachaça de primeira qualidade; passeamos pela cidade e conversamos muito, muito mesmo.

E o Marcão, sempre interessado nas histórias da cidade, se bebericava da cultura da terra e de seu povo. Sempre quis ter um violão bom, já que o que eu tinha foi destruído na mudança de Macapá (AP) para Vitória e o que me deram em substituição era tão ruim que nunca mais me animei a pegar no pinho para me divertir. Isto, desde 1985. Quando ouvi o som claro como sino do violão feito por “seu” Cabral, não tive dúvidas, encomendei um a ele e de quebra uma viola, formando assim um “casal”, como dizem nos meios caipiras desse nosso interiorzão.

Vou ter que aprender tudo de novo, já que depois desses longos anos, perdi toda a noção do pouco que sabia sobre tais instrumentos. Na fábrica de cachaça, degustamos a deliciosa pinga ali produzida e algumas garrafas foram adquiridas pelos visitantes. À noite, para saciar nossa fome, saímos todos para saborear uma “dobradinha” supimpa animada pelo bom papo e a cerveja gelada.

À noite discutimos nosso roteiro e combinamos que a primeira parada seria em Campina Verde (MG) para visitar um amigo e colega do Endgel, também Delegado de Polícia, naquela cidade.

Bleiner, Everson, Emanuel, Marcão, Alípio e Alysson, secando skol e degustando peixe-frito

Na terça-feira, dia três de julho, logo cedo e depois de nos despedirmos do Everson, da Dirlene, sua esposa e de sua filha, pegamos as nossas motos e partimos para nossos destinos: o Marcão retornando para Guarulhos e o Engel e eu com destino traçado, mas não totalmente definido, em direção ao centro-oeste e norte do país onde pretendíamos, como de fato o fizemos, visitar Cuiabá, Porto Velho e Rio Branco com alguns desvios até à Chapada dos Guimarães e Pantanal norte mato-grossense.

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